Pr. João Falcão Sobrinho: Reciclagem no ministério pastoral

Ao iniciar o seu primeiro, ou um novo pastorado:

1. Leve em consideração a palavra dos membros da igreja, especialmente dos que têm responsabilidades de liderança. Não se mostre auto-suficiente. Ouça antes de julgar, pois a primeira impressão, muitas vezes, é enganosa. Quem ouve mais erra menos, além de poder contar com mais simpatia no caso de errar. Reúna a igreja em grupos de interesse (os musicistas, os professores da EBD, os diáconos, etc.) e converse informalmente sobre o que cada grupo acha que a Igreja espera do novo pastor. Pergunte também o que eles acham que o novo pastor pode esperar dos obreiros.

2. Procure inteirar-se da história da Igreja. A história formal, através da documentação disponível (atas, boletins, etc.) e a história informal, conversando com os membros mais antigos. Se a igreja não possui um histórico, escreva-o, nem que seja em resumo, para o seu uso. É indispensável conhecer a história da Igreja onde você vai trabalhar. Isso demonstra interesse e evita gafes e constrangimentos.

3. Procure inteirar-se da situação legal da igreja. Procure colocar tudo em ordem no menor tempo possível: estatutos, escrituras de propriedade, obrigações trabalhistas, plantas das edificações, etc. Reúna toda a documentação em pastas próprias. Acione a diretoria e outros membros para ajudá-lo. Dá trabalho, mas compensa, pois você fica logo de posse dos instrumentos legais que facilitarão o seu trabalho, além de adquirir segurança e firmar o seu conceito como um obreiro responsável.

4. Procure conhecer, logo de saída, o seu campo de trabalho. Visite escolas, jornais, rádios, repartições públicas da cidade ou do bairro. Ofereça a sua colaboração no que couber. Apresente-se nos cartórios da cidade ou região, deixe ali a sua firma logo nos primeiros dias após a sua chegada. Deixe seu nome e endereço pastoral com gerentes de bancos, nos cartórios e repartições, etc. Não espere que a cidade venha ao seu encontro para conhecê-lo. Vá ao encontro da cidade.

5. Não hostilize o passado. Não suba pisando sobre cinzas. Ou seja: não tenha ciúmes dos bons, nem critique os maus obreiros que o precederam. Nunca aceite referências desairosas a obreiros anteriores, nem a pastores de outras igrejas, pois essas referências visam atingir a sua própria imagem como ministro. Não procure os culpados pelos problemas que encontrar. Procure soluções. Você vai formar o seu próprio conceito.

6. Tome por princípio não mudar nada que não seja indispensável mudar no primeiro ano do seu ministério. A melhor época para efetuar mudanças estruturais é por ocasião da eleição da nova diretoria. Se a sua posse for logo no início de um novo ano eclesiástico, ajude a nova diretoria e procure conhecer bem como e por que cada trabalho é feito do modo como é feito. Se achar que algo deve mudar, estude a melhor maneira de fazer as mudanças, discuta o assunto com os obreiros e leve os planos para a assembléia da igreja antes de efetivar qualquer alteração que interfira no trabalho dos outros.

7. Não estimule a formação de grupos por faixas etárias, por interesses, por famílias nem por nível econômico, cultural ou espiritual. Faça amizade com todos. Há aqueles que não manifestam de pronto a sua amizade e seu apoio, mas muitas vezes vão ser mais solidários e eficientes colaboradores que os aduladores e extrovertidos. Nunca demonstre preferências, por exemplo, chamando sempre as mesmas pessoas para orar em público, etc. Na visitação, nos cumprimentos, em tudo procure ser imparcial. Use franqueza temperada com amor, para evitar que algum crente do tipo “adesivo” monopolize as suas atenções e o seu tempo.

8. Jamais hostilize, jamais use a tática imatura e descaridosa de “pôr na geladeira”, ou seja, marginalizar, um membro da igreja que discorde de uma opinião sua ou mesmo que se ponha contra algum dos seus planos. Nunca veja a discordância como se fosse agressão, pois isso revela falta de humildade e imaturidade. Ou seja, um cristão amadurecido sabe conviver com pessoas que pensam de modo diferente e esse é o primeiro item de um roteiro de procedimentos para conquistar alguém para o seu ponto de vista, se este realmente for o melhor. Geralmente, as pessoas que acabam se colocando contra a pessoa do pastor, inicialmente estavam apenas contra alguma das suas idéias e por isso foram hostilizadas. Quem se manifesta contra sua opinião pode estar mais ao seu lado do que o bajulador que diz amém a tudo, mas com quem você nunca pode contar.

9. Não ponha a sua autoridade funcional acima da sua autoridade espiritual. Não manipule a sua congregação pelo uso de regras parlamentares, técnicas de condução de massas (Amém, irmãos?), nem por ameaças ou promessas incumpríveis. Use os seus conhecimentos, seus dons e sua autoridade para ajudar as pessoas, não para manipulá-las.

10. Quando tiver pela frente problemas para os quais você ainda não tenha solução, procure entrar em contato com outros pastores que tenham mais experiência, pedindo-lhes ajuda.

11. Não queira passar para a igreja a imagem de um ser perfeito e irretocável, que você nunca será, mas acredite na unção e capacitação do Espírito para o ministério. Não viva chorando suas fraquezas, mas não deixe de reconhecer quando errar, e de voltar atrás. Disponha a sua mente para aprender as lições que cada fracasso encerra, lembrando-se de que o pior de uma queda é não aproveitá-la para aprender a caminhar. Um simples pedido de desculpas, produzirá um efeito muito mais benéfico para a sua imagem e autoridade de pastor, do que muitos argumentos tentando justificar um erro. Lembre-se de que “o fardo do meu irmão é parte do meu fardo” e isso vale tanto para os outros como para você.

12. Não vista a capa da falsa modéstia, mas também não recuse o reconhecimento sincero. Se alguém elogiar o seu sermão, não faça outro sermão para provar que “não é nada disso.” Diga apenas “muito obrigado” e as pessoas verão que foi válida a tentativa de encorajá-lo. Mantenha a sua compreensão de dependência da graça de Jesus para não se tornar arrogante, nem perder a humildade sincera diante dos elogios.

13. Ensine a Bíblia. Obviamente, para ensinar a Bíblia é preciso estudá-la sempre e viver seus ensinos. Ao criar interesse pelo estudo bíblico, você estará focalizando as atenções da igreja nas verdades e nos fatos bíblicos, estará formando uma base sólida para fortalecer a igreja e baseando a sua autoridade na Palavra de Deus e não na sua própria palavra. Nunca deprecie um irmão com ironia por não saber ele aquilo que você mesmo deveria ensinar-lhe. Não condene a igreja por não saber manusear a Bíblia. Ensine-a a fazê-lo.

14. Fale pessoalmente com os membros da igreja que tenham problemas. Não mande recados nem ataque os crentes do púlpito, pois isso os coloca na defensiva, que resulta em ataques contra você. Nunca leve para o púlpito os problemas pessoais dos membros da igreja, nem mesmo como ilustração anônima, pois isso tira a sua autoridade para ajudá-los. Cobrar virtudes do púlpito é muito fácil. Dar o exemplo e exortar pessoalmente com amor exige autoridade moral, mas esse é o método que dá bons resultados e gera gratidão.

15. Aprenda a depender de Deus em oração, na realidade secreta da sua própria vida espiritual. Não use a oração como recurso para intimidar os ouvintes, para exibir seus conhecimentos, nem para passar a impressão de uma piedade inexistente de fato. Não faça da oração apenas um item da liturgia, nem pense na oração como um fenômeno psico-cultural-emociocional, mas como a súplica fervorosa de um filho do Rei que faz desencadear os poderes reais. Não demore para dominar essa arma que lhe será indispensável na pregação, no aconselhamento, no ensino, na administração, na beneficência. Sem oração, você terá que confiar em si mesmo. Seu trabalho será na força da carne e não no poder do Espírito. Logo, logo os crentes saberão a diferença.

16. Nunca se queixe de sua igreja para os colegas. Nunca se queixe de um membro da igreja para outro membro, nem de uma família para outra família. Ao fazê-lo, você estaria demonstrando não possuir confiança em si mesmo, nos seus próprios valores e critérios. Não se queixe dos problemas. Resolva-os.

17. Não coma o pão da preguiça. Talento não substitui trabalho. Prepare cuidadosamente os seus sermões. Não leia a Bíblia apenas homileticamente, mas leia-a devocionalmente. As melhores mensagens, as que produzem melhores efeitos, não saem da mente, mas do coração. Nem por isso caia na tentação de pensar que você pode alcançar grandes resultados com pouca ou nenhuma preparação. Dedique tempo a ler bons livros para aumentar e aprofundar seus conhecimentos e aperfeiçoar a sua forma de elaborar e transmitir seu pensamento. Invista em comentários bíblicos, dicionários, literatura secular, filosofia, boas revistas. Se você gastar mais tempo vendo televisão ou navegando pela internet do que lendo bons livros, sua mensagem poderá ter boa contextualização, mas certamente não terá profundidade. Você será sempre o juiz e o fiscal da mordomia do seu tempo, mas a Igreja saberá ver a diferença.

18. Seja cuidadoso com sua aparência, com o seu vocabulário, com sua saúde. Na aparência, nem luxo nem desleixo. No vocabulário, nem afetação e exibicionismo, nem vulgaridade e desrespeito. Na saúde, nem cuidados exagerados, nem desmazelo.

19. Cuide bem da sua principal ferramenta de trabalho: sua fala. Aprenda a usar a sua voz sem prejudicar seu aparelho fonador e sem deixar de ser entendido. Use corretamente a respiração, fale no seu tom natural de voz, mova os lábios e a língua para pronunciar os sons corretamente. Se tiver algum problema na sua fala, não hesite em procurar ajuda profissional. Os crentes poderão até se acostumar com suas dislalias. Os visitantes, não!

20. Ame cada ovelha. Quando for difícil amar uma ovelha em particular, recorra ao seu próprio Pastor. Jesus ama a todas as suas ovelhas, mesmo às enfermas, às machucadas, às rebeldes, às mancas ou com uma pata quebrada. Ele diz a Pedro: 1º “Apascenta os meus cordeirinhos”. 2º “Apascenta as minhas ovelhas”. 3º “Apascenta as minhas ovelhas”. Apascentar é nutrir o rebanho, não nutrir-se do rebanho.

21. Evangelize. Traga sangue novo para a igreja. Nada enriquece mais o conceito de um ministério do que um batistério sempre cheio. Nada desanima tanto uma igreja como um batistério seco. Às vezes, a igreja já está de tal modo acomodada, que a única forma de dinamizá-la é criar uma nova igreja através do evangelismo. Somente depois é que alguns dos antigos membros serão despertados.

22. Desenvolva na igreja o espírito missionário. O dinheiro dos crentes é parte da vida deles. Aplicando parte desses dízimos e ofertas na obra missionária, a igreja está dando uma dimensão mundial a uma parte da vida dos seus membros. Como “a luz que brilha mais longe, perto brilha mais” (Oswald Smith), quanto mais os crentes derem para missões, maior visão e motivação terão para contribuir para os fins da própria igreja, sustento ministerial inclusive. Reduza a visão missionária da igreja pela redução dos percentuais do Plano Cooperativo e das ofertas para Missões Estaduais, Nacionais e Mundiais e você mesmo será a primeira vítima da sua falta de visão pela redução da visão da igreja no sustento pastoral. Qual é o limite da cosmovisão dos membros da sua igreja? Amplie a visão de mundo e de humanidade da sua igreja e a própria igreja será beneficiada.

23. Faça os seus planos cuidadosamente para viver dentro do seu orçamento. Só peça vales ou adiantamentos salariais ao tesoureiro se for absolutamente necessário para cobrir gastos imprevistos e justificáveis. Jamais lance mão de qualquer dinheiro da igreja para fins pessoais ou mesmo para fins não autorizados previamente pela igreja. Já se disse que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso. Cuidado! Não seja do tipo de empregado que põe a reivindicação de melhoria salarial sempre à frente de melhores resultados do seu trabalho. Reivindique sempre em favor da igreja e a igreja reivindicará em seu favor. Se a sua igreja não reconhecer concretamente o seu valor, continue trabalhando e dando o melhor de si e logo outra igreja irá reconhecê-lo.

24. Dê o devido valor à família, a começar pela sua própria, que sempre será tomada como exemplo pelos crentes, queira você ou não. Jamais se queixe da sua esposa ou dos filhos para membros da igreja. Jamais insinue uma crítica à sua esposa em público. Não fique elogiando as outras senhoras e as moças da igreja perante a sua esposa, especialmente em relação à aparência, aos dotes culinários e nos dons que sua esposa possa não ter. Não considere a sua esposa como um apêndice do seu ministério, mas permita que ela desenvolva o seu próprio ministério de mulher cristã, de acordo com os seus dons pessoais. Nunca ponha sobre os ombros da sua família um peso maior do que ela possa carregar. Não manipule a sua família para alcançar seus fins pessoais no ministério. Se algum dia tiver que escolher entre dar tempo à sua família ou à igreja, por amor à igreja, coloque sua família em primeiro lugar.

Aproveite, adapte, desenvolva o que puder destes parágrafos. Muito provavelmente, eu não sentiria hoje tanta necessidade de dar estes conselhos, se os tivesse recebido em tempo, em 1953.